Expansão das restrições reduziu distrações digitais, mas dados mostram que retirar o aparelho, sozinho, não resolve os desafios de aprendizagem no país
A presença dos celulares nas escolas brasileiras mudou significativamente nos últimos anos. Dados do Pisa 2025, divulgados pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mostram que 81% dos estudantes brasileiros estão matriculados em escolas que proíbem o uso de celulares.
O percentual representa uma forte mudança em relação a 2022, quando apenas 37% dos alunos estudavam em instituições com esse tipo de restrição. Apesar do avanço das políticas de controle, os resultados indicam que a relação entre tecnologia e aprendizagem é mais complexa do que simplesmente retirar o aparelho da sala de aula.
Proibição cresceu rapidamente
Em apenas três anos, o percentual de estudantes brasileiros submetidos a regras de proibição do celular mais que dobrou.
O índice brasileiro também está acima da média registrada nos países da OCDE, onde 49% dos estudantes frequentam escolas que adotam a proibição.
A mudança acompanha a preocupação crescente de educadores com distrações provocadas por mensagens, redes sociais, vídeos e outros conteúdos acessados durante as aulas.
Celular pode afetar a concentração
Os dados do Pisa mostram uma relação entre distração digital e desempenho.
No Brasil, um em cada quatro estudantes afirma que os colegas se distraem com dispositivos digitais durante a maioria ou todas as aulas de Ciências. Esses alunos tiveram, em média, 19 pontos a menos na avaliação de Ciências, mesmo quando foram consideradas diferenças socioeconômicas.
Na média da OCDE, a diferença foi de 11 pontos. Os números, porém, não comprovam que o celular seja sozinho a causa da queda no desempenho, já que o Pisa identifica relações entre fatores, mas não estabelece necessariamente uma relação direta de causa e efeito.
Tecnologia também pode ajudar na aprendizagem
O levantamento mostra que nem todo contato com dispositivos digitais produz o mesmo efeito.
O uso moderado da tecnologia com finalidade educacional e orientação adequada está associado a resultados melhores em Ciências do que a ausência completa de tecnologia ou o uso excessivo.
Por outro lado, o uso de dispositivos para lazer durante as aulas apresenta relação negativa com o desempenho quando ultrapassa determinado nível.
A diferença está, portanto, não apenas no tempo diante da tela, mas principalmente na finalidade, no momento e na orientação dada ao estudante.
Desempenho brasileiro continua abaixo da média
Os dados também mostram que a discussão sobre celulares acontece dentro de um problema educacional muito maior.
No Pisa 2025, apenas 48% dos estudantes brasileiros atingiram o nível básico em Ciências, contra 74% na média da OCDE. Em Matemática, foram 28% no Brasil, diante de 65% entre os países da organização. Em Leitura, o índice brasileiro ficou em 49%, contra 69% na OCDE.
Isso significa que simplesmente retirar o celular das escolas não é suficiente para solucionar dificuldades estruturais de aprendizagem.
Desafio é encontrar equilíbrio
A experiência brasileira indica que controlar o uso dos aparelhos pode ajudar a diminuir distrações, mas a tecnologia também pode ser incorporada ao ensino quando existe uma finalidade pedagógica clara.
Para especialistas, o caminho passa por ensinar os estudantes a utilizar ferramentas digitais de maneira responsável, ao mesmo tempo em que escolas estabelecem limites para impedir que esses recursos prejudiquem a concentração.
O desafio da educação brasileira não é apenas decidir se o celular deve estar ou não na sala de aula, mas garantir que a tecnologia seja utilizada para favorecer — e não substituir — a aprendizagem.
Uma mudança que vai além do celular
A expansão das restrições mostra que as escolas brasileiras estão tentando responder a uma transformação que já faz parte da rotina dos estudantes.
O próximo desafio será equilibrar atenção, aprendizagem e uso consciente da tecnologia, especialmente em um cenário no qual inteligência artificial, computadores e dispositivos digitais ocupam cada vez mais espaço na educação.
